terça-feira, 10 de junho de 2008

SEXO, CRIANÇAS E MUITA TV: A Influência da Televisão na Sexualidade Infanto-Juvenil


A televisão é o primeiro e maior contato das pessoas com o mundo externo. Por estar presente na maioria dos lares e atingindo todos os níveis sociais, exerce grande influência perante a educação das crianças, tornando-se até mesmo uma eficiente “babá eletrônica” e substituindo a presença dos pais. Entretanto, muitas vezes transmite informações que não são coerentes e compatíveis com as que são passadas pelos mesmos.

A TV tem o poder de entreter, informar e acompanhar crianças e jovens, mas também possui o poder de formar e deformar o seu público mais novo através de seus produtos.

Um exemplo claro disto foi o comercial do chocolate Batom da Garoto, onde a mensagem “Compre Batom”, de caráter imperativo, atingia seu público alvo - as crianças - diretamente, aumentando assim o percentual de vendas do ano referente. “Se uma pessoa é atingida pela propaganda, pode ser controlada, manipulada, induzida a agir”. (WOLF, 2005, p. 11)

Por estar inserida numa sociedade altamente consumista, a televisão foca-se na busca por pontos no ibope e a programação é elaborada exatamente para atingir a meta estipulada. Contudo, seu maior problema não é a programação propriamente dita, mas sim os horários que os programas estão fixados. Esta é selecionada visando primeiramente os interesses próprios da emissora e, por conseguinte, os interesses econômicos e políticos.

A televisão brasileira está entre as melhores do mundo em qualidade técnica e é de sua responsabilidade a unificação da nossa identidade de brasileiros, num país com tamanha diversidade. Contudo, nossa TV caracteriza-se por ser hipersexualizada, não havendo nenhuma outra igual.

No Brasil, não há leis regulamentadas que controlem o conteúdo do que é transmitido pelas emissoras de televisão e poucos cidadãos sabem que as concessões feitas a essas empresas são de direito do povo, que pode pressionar o governo caso o que seja exibido não esteja agradando ou esteja ferindo seus valores morais.

Em relação às crianças e adolescentes, a mídia e, principalmente a televisão, exerce uma influência significativa no cotidiano, por estarem na fase de formação dos valores, conceitos, modelos de conduta e comportamento sexual.

De acordo com o sexólogo Marcos Ribeiro, autor do livro Sexo: como orientar seu filho, da Editora Planeta, as crianças mais novas não conseguem decodificar as mudanças de cenas, os efeitos visuais e de aproximação e afastamento da câmera. Também não percebem que o desenho que estão assistindo parou e que já está passando um comercial. Na sua imaginação tudo faz parte de um só programa, que está mandando-a comprar.

Há falta de compromisso dos meios de comunicação de massa para com o bem estar psicológico de nossas crianças e adolescentes? Como eles vêem o processo de estruturação da sexualidade da criança? A sexualidade surge na adolescência devido à ação dos hormônios? Ela é um instinto inalterável, como nos animais? Diferentemente do que acreditávamos, a atividade sexual não é proveniente de um instinto e, sim, determinada pela cultura que é transmitida por antepassados e pelos meios de comunicação.

A criança possui uma sexualidade com características diferentes da sexualidade adulta, porque ela ainda não organizou todos aqueles impulsos e impressões eróticas dispersas. Só aos poucos ela vai organizar seu erotismo na direção da genitalidade, isto é, da relação sexual propriamente dita.

Observa-se que não apenas a mídia é capaz de influenciar na educação das crianças, mas os pais e familiares também detêm este poder; acrescentando nisso tudo o meio em que vivem.

O comportamento dos homens é em grande parte determinado pela integração em sua memória, de sua experiência passada e do fluxo permanente de conhecimentos que recebem de seu meio. (ADORNO E TALI, 2000, p. 85)

Assim, exposição precoce a cenas de sexo de forma degradante, pornográfica e sem nenhum critério, pode interferir no desenvolvimento emocional das crianças. Isto pode gerar algumas conseqüências:

1. A banalização da sexualidade - O acúmulo de cenas sexuais de todos os tipos sendo despejadas continuamente sobre a criança faz com que ela aprenda a ver o sexo como algo banal, que se faz porque todos fazem, porque o grupo pressiona e não pelo significado pessoal que possa ter.

2. O efeito de identificação - Cenas sexuais apresentadas por jovens atraentes, com quem os adolescentes se identificam e para os quais as conseqüências do ato nunca aparecem como de fato são, têm todas as condições para serem imitadas. Isso não se aplica somente à sexualidade, naturalmente, ela é base de toda estratégia de marketing, onde não compramos o produto, e sim as sensações que ele nos oferece.

3. A imagem da mulher - O uso da mulher como objeto do desejo masculino, onde ela é vista somente como um corpo, ou parte de um corpo. Nossa televisão não oferece, às nossas meninas e adolescentes, modelos suficientes de identificação feminina, nos quais a mulher apareça íntegra em sua dignidade humana, como o fazem intensamente os países avançados, onde os movimentos feministas zelam para que isso aconteça. O que estamos ensinando às nossas meninas é que sua função na vida é ser objeto e não Sujeito. Percebemos tais fatos com maior freqüência nas propagandas de cerveja, onde a imagem da mulher é associada à sensação de prazer da bebida.

A televisão, na verdade, joga o tempo todo estímulos sexuais, para que as pessoas façam sexo, mas não transmite informações abertas, claras, para os problemas que, porventura, possam surgir. (VALLADARES, 1997, p.36)

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, pela National Surveys of Children, comprova que estudantes que assistiram a filmes de sexo explícito aceitavam a infidelidade e a promiscuidade. Afirmava também que entre 391 estudantes, os que assistiram a maior conteúdo sexual na TV tinham a probabilidade de iniciar sua vida sexual 1 ano antes e que adolescentes do sexo masculino que assistiam mais TV apresentavam maior prevalência de atividade sexual.

Isto prova o quanto a mídia pode influenciar na sexualidade das crianças e adolescentes, mas não podemos esquecer da responsabilidade que os pais devem ter diante da educação do filhos, já que participam pouco da rotina deles.

O Estado, ao se eximir da educação de seus cidadãos, também possui responsabilidade na precocidade sexual dos mesmos, na falta de incentivos que conduzam a práticas saudáveis, já que nossas crianças passam mais tempo em frente à televisão do que nas salas de aula.

Por, atualmente, apresentarem um vazio de referências, os adolescentes acabam buscando nos meios de comunicação de massa um refúgio. A partir daí, fixam padrões de beleza absoluta, criam estereótipos, alimentam preconceitos e constroem uma sexualidade exagerada e deformada.

Segundo Kátia Valladares, a televisão pode e deve contribuir positivamente para a formação da sexualidade sadia, sem preconceitos, porém com responsabilidade. Tudo depende da programação apresentada. Falta, na verdade, interesse por parte das emissoras em desenvolver tal trabalho. Falta apoio por parte dos órgãos governamentais, ligados aos meios de comunicação, em divulgar programas com finalidades educativas e não apenas comerciais. A escola poderia realizar um trabalho efetivo sobre textos dos veículos de massa, especialmente os da TV. Aos pais caberia filtrar melhor o tipo de programação televisiva que seus filhos assistem, adequar horários das programações à faixa etária dos mesmos e, ainda mais, conversar aberta e francamente sobre o tipo de informação que está sendo transmitida.

Desta forma, não podemos apenas culpar a televisão pela precocidade sexual, pois outras instituições paradigmáticas também têm participação na formação da identidade das crianças e dos adolescentes. Os pais não podem continuar agindo como se seus filhos fossem assexuados, e a escola como se a sexualidade dos seus alunos não fosse problema seu; enquanto o Estado isenta-se da sua responsabilidade privatizando a educação do país.

Ao passo que os pais e professores não assumem seus papéis na formação e orientação de crianças e adolescentes, a TV continua ligada diariamente, usando-os como generosas fatias a serem engolidas no mercado de consumo

MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA - UMA SATISFAÇÃO IMEDIATA AOS DESEJOS DO INDIVÍDUO?

Os meios de comunicação de massa são capazes de atingir simultaneamente grandes camadas da população, divulgando idéias e formando pensamentos que criam moldes para uma sociedade manipulável. Estas idéias são preparadas para um público mediano e infantilizado, desconsiderando a capacidade crítica desses indivíduos.

Com os meios de comunicação agindo como disseminadores - de idéias, informações, opiniões, etc. - a indústria cultural ganha um poder de persuasão imenso, não precisando justificar suas ações, apenas “jogá-las” para um público receptivo a esses ideais pré-estabelecidos. Como afirma Marilena Chauí (2003):


De fato, como a dia nos infantiliza, diminui nossa atenção e capacidade de pensamento, inverte realidade e ficção e promete, por meio da publicidade, colocar a felicidade imediata ao alcancede nossas mãos, transforma-nos num público dócil e passivo. ( p.333)

Assim, se valendo do poder que a mídia tem, produtos são apresentados de forma massificada pela indústria cultural que acaba oferecendo uma satisfação imediata aos anseios e problemas cotidianos


O objetivo dos meios de comunicação é apresentar idéias e informações que não imponham e sim estimulem o fazer pensar, contestar, criticar etc, caráter para qual foi designada. Porém, o que vemos hoje na maioria dos profissionais é a manutenção do modelo de sociedade que aí está. Produções com repetição de fórmulas que um dia deram certo, como exemplo o livro Código da vinci,que trouxe consigo Decifrando o Código,Muito além do Código,A verdade por traz do Código da vinci,livros que são remodelados e apresentados apenas com algumas modificações em relação ao primeiro.


Um outro produto apresentado pelos meios de comunicação de massa são os programas de aconselhamento, que nos passa claramente essa sensação de satisfação imediata aos nossos problemascotidianos.

Nesses programas são discutidos problemas familiares, aonde as pessoas vão em busca de dicas de como proceder na vida familiar, tendo opiniões de especialistas, psicólogos, que graças à praticidade, por oferecer soluções prontas, acabam por ganhar assim o telespectador, implementando uma forma de comportamento em toda sociedade submetida a estas informações, utilizando o próprio ócio humano como uma forma de mecanizá-lo, mecanização esta que transformam e subvertem ideais.

Ao apresentar esses produtos a Indústria Cultural pratica o reforço das normas sociais, impostas sem discussão. Oferece ilusoriamente a sensação de satisfação, vendendo do estilo de vida ao estado de espírito, transformando o apreciador em um simples consumidor de produtos fabricados em série, que quando aceitos pela massa, geram a fabricação de várias edições seqüenciais, criando um vinculo entre consumidor e produção.

Podemos citar como exemplo os livros de auto-ajuda que expressam exatamente esta ligação, meras cópias e reproduções, apenas o velho com cara de novo, modificando apenas o público alvo e as temáticas:ora felicidade; ora dinheiro; sucesso; família. Para homens, mulheres, crianças. Como podemos identificar nas imagens abaixo:


Nesses livros, percebemos a influência que os meios de comunicação têm sobre a satisfação dos desejos e indagações comuns aos seres humanos, todos querem ser felizes, ter dinheiro, sucesso, amor etc, que fazem com que essas produções passem à sensação de exclusividade, funcionando como um molde considerado “ideal”, para todo e qualquer individuo. Porém, acreditamos que cada pessoa possui maneiras e formas diferentes de agir a determinadas situações, e deveriam utilizar o que é oferecido pelos meios de comunicação como mais um elemento para a formulação de conceitos e não “o” elemento determinante.

Com seus produtos, a Indústria Cultural pratica também uma outra função, promove a deturpação e a degradação do gosto popular; simplifica ao máximo seus produtos, obtendo uma atitude sempre passiva do consumidor. Assim, segundo Marilena Chauí(2003):


Um especialista- é sempre um especialista- nos ensina a viver, um outro nos ensina a criar os filhos, outro nos ensina a fazer sexo, e assim vão se sucedendo especialistas que nos ensinam a ter um corpo juvenil e saudável, boas maneiras, jardinagem, meditação espiritual, enfim, não há um único aspecto de nossa existência que deixe de ser ensinada por um especialista competente. ( p.333a)

Desse modo, os meios de comunicação de massa que têm como função a informação, entretenimento, educação e diversão “gratuita”, sem possíveis interesses, no entanto, não é o que vemos, mas sim uma simulação de democracia, de difusão cultural, de oportunidades iguais, uma manipulação das informações de acordo com interesses particulares. Ninguém é impelido a nada, seja contra ou a favor, mas somos sim induzidos a continuar como estamos inertes e totalmente satisfeitos com tudo que nos é mostrado. Expressado por Adorno (1978 Quando afirma que:


A idéia de que o mundo quer ser enganado tornou-se mais verdadeira do que, sem, dúvida, jamais pretendeu ser. Não somente os homens caem no logro, como se diz, desde que isso lhe dê uma satisfação por mais fugaz que seja, como também desejam essa impostura que eles próprios entrevêm; esforçam-se por fecharem os olhos e aprovam, numa espécie de autodesprezo, aquilo que lhes ocorre e do qual sabem porque é fabricado.(Adorno,1978, p.293)

Temos como mais um exemplo as novelas, por apresentarem em seu contexto, situações cotidianas que também funcionam como referência para os telespectadores, refletindo a emoção de suas tramas na vida pessoal dos mesmos. Criando moldes e expectativas baseadas nas histórias que também são repetitivas, mais sempre reformuladas. Como menciona Briggs(2004):

“As séries atuais de televisão copiam o modelo das novelas radiofônicas, que, por sua vez, se moldam nas histórias em capítulos de revistas do século XIX.” ( p14).

Portanto,

A indústria cultural faz o consumidor acreditar que o que está sendo oferecido, além de indispensável, é o suficiente para o momento, mas sempre instigando a busca de novos produtos para atender a novas necessidades que ela fará surgir.

A falsa promessa de felicidade está estampada nos slogans usados nas propagandas, transmitindo, assim, um modelo de felicidade burguesa, e hábitos da sociedade capitalista. (COSTA, 2008, p. 3).


Ilusoriamente, o consumidor se vê satisfeito com o que lhe é apresentado, diante dos fatos, uma mudança se faz necessária. Possuindo a capacidade de distinguir e absorver o necessário para sua formação, o consumidor só depende de um novo formato de divulgação com maiores opções e um maior aprofundamento nos conteúdos abordados, e não da forma alienante e superficial que acontece atualmente

Podemos então concluir que a satisfação imediata aos anseios e expectativas, apresentadas pela indústria cultural impõe de forma limitada e infantilizada aspectos que tornam o individuo alienado, passivo e desinformado
.
Quando na verdade deveria ser uma forma de democratizar e socializar conhecimentos,apresentando caminhos e opções que oferecesse ao consumidor uma maior abrangência em diversos assuntos, que aprimorassem o leque de conhecimentos e formas de agir em situações cotidianas, profissionais e pessoais.

Somente através do desenvolvimento da criticidade dos indivíduos, conseguiremos desmistificar a satisfação imediata que nos é oferecida l pelos meios de comunicação de massa.