A televisão é o primeiro e maior contato das pessoas com o mundo externo. Por estar presente na maioria dos lares e atingindo todos os níveis sociais, exerce grande influência perante a educação das crianças, tornando-se até mesmo uma eficiente “babá eletrônica” e substituindo a presença dos pais. Entretanto, muitas vezes transmite informações que não são coerentes e compatíveis com as que são passadas pelos mesmos.
A TV tem o poder de entreter, informar e acompanhar crianças e jovens, mas também possui o poder de formar e deformar o seu público mais novo através de seus produtos.
Um exemplo claro disto foi o comercial do chocolate Batom da Garoto, onde a mensagem “Compre Batom”, de caráter imperativo, atingia seu público alvo - as crianças - diretamente, aumentando assim o percentual de vendas do ano referente. “Se uma pessoa é atingida pela propaganda, pode ser controlada, manipulada, induzida a agir”. (WOLF, 2005, p. 11)
Por estar inserida numa sociedade altamente consumista, a televisão foca-se na busca por pontos no ibope e a programação é elaborada exatamente para atingir a meta estipulada. Contudo, seu maior problema não é a programação propriamente dita, mas sim os horários que os programas estão fixados. Esta é selecionada visando primeiramente os interesses próprios da emissora e, por conseguinte, os interesses econômicos e políticos.
A televisão brasileira está entre as melhores do mundo em qualidade técnica e é de sua responsabilidade a unificação da nossa identidade de brasileiros, num país com tamanha diversidade. Contudo, nossa TV caracteriza-se por ser hipersexualizada, não havendo nenhuma outra igual.
No Brasil, não há leis regulamentadas que controlem o conteúdo do que é transmitido pelas emissoras de televisão e poucos cidadãos sabem que as concessões feitas a essas empresas são de direito do povo, que pode pressionar o governo caso o que seja exibido não esteja agradando ou esteja ferindo seus valores morais.
Em relação às crianças e adolescentes, a mídia e, principalmente a televisão, exerce uma influência significativa no cotidiano, por estarem na fase de formação dos valores, conceitos, modelos de conduta e comportamento sexual.
De acordo com o sexólogo Marcos Ribeiro, autor do livro Sexo: como orientar seu filho, da Editora Planeta, as crianças mais novas não conseguem decodificar as mudanças de cenas, os efeitos visuais e de aproximação e afastamento da câmera. Também não percebem que o desenho que estão assistindo parou e que já está passando um comercial. Na sua imaginação tudo faz parte de um só programa, que está mandando-a comprar.
Há falta de compromisso dos meios de comunicação de massa para com o bem estar psicológico de nossas crianças e adolescentes? Como eles vêem o processo de estruturação da sexualidade da criança? A sexualidade surge na adolescência devido à ação dos hormônios? Ela é um instinto inalterável, como nos animais? Diferentemente do que acreditávamos, a atividade sexual não é proveniente de um instinto e, sim, determinada pela cultura que é transmitida por antepassados e pelos meios de comunicação.
A criança possui uma sexualidade com características diferentes da sexualidade adulta, porque ela ainda não organizou todos aqueles impulsos e impressões eróticas dispersas. Só aos poucos ela vai organizar seu erotismo na direção da genitalidade, isto é, da relação sexual propriamente dita.
Observa-se que não apenas a mídia é capaz de influenciar na educação das crianças, mas os pais e familiares também detêm este poder; acrescentando nisso tudo o meio em que vivem.
O comportamento dos homens é em grande parte determinado pela integração em sua memória, de sua experiência passada e do fluxo permanente de conhecimentos que recebem de seu meio. (ADORNO E TALI, 2000, p. 85)
Assim, exposição precoce a cenas de sexo de forma degradante, pornográfica e sem nenhum critério, pode interferir no desenvolvimento emocional das crianças. Isto pode gerar algumas conseqüências:
2. O efeito de identificação - Cenas sexuais apresentadas por jovens atraentes, com quem os adolescentes se identificam e para os quais as conseqüências do ato nunca aparecem como de fato são, têm todas as condições para serem imitadas. Isso não se aplica somente à sexualidade, naturalmente, ela é base de toda estratégia de marketing, onde não compramos o produto, e sim as sensações que ele nos oferece.
A televisão, na verdade, joga o tempo todo estímulos sexuais, para que as pessoas façam sexo, mas não transmite informações abertas, claras, para os problemas que, porventura, possam surgir. (VALLADARES, 1997, p.36)
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, pela National Surveys of Children, comprova que estudantes que assistiram a filmes de sexo explícito aceitavam a infidelidade e a promiscuidade. Afirmava também que entre 391 estudantes, os que assistiram a maior conteúdo sexual na TV tinham a probabilidade de iniciar sua vida sexual 1 ano antes e que adolescentes do sexo masculino que assistiam mais TV apresentavam maior prevalência de atividade sexual.
Isto prova o quanto a mídia pode influenciar na sexualidade das crianças e adolescentes, mas não podemos esquecer da responsabilidade que os pais devem ter diante da educação do filhos, já que participam pouco da rotina deles.
O Estado, ao se eximir da educação de seus cidadãos, também possui responsabilidade na precocidade sexual dos mesmos, na falta de incentivos que conduzam a práticas saudáveis, já que nossas crianças passam mais tempo em frente à televisão do que nas salas de aula.
Segundo Kátia Valladares, a televisão pode e deve contribuir positivamente para a formação da sexualidade sadia, sem preconceitos, porém com responsabilidade. Tudo depende da programação apresentada. Falta, na verdade, interesse por parte das emissoras em desenvolver tal trabalho. Falta apoio por parte dos órgãos governamentais, ligados aos meios de comunicação, em divulgar programas com finalidades educativas e não apenas comerciais. A escola poderia realizar um trabalho efetivo sobre textos dos veículos de massa, especialmente os da TV. Aos pais caberia filtrar melhor o tipo de programação televisiva que seus filhos assistem, adequar horários das programações à faixa etária dos mesmos e, ainda mais, conversar aberta e francamente sobre o tipo de informação que está sendo transmitida.
Desta forma, não podemos apenas culpar a televisão pela precocidade sexual, pois outras instituições paradigmáticas também têm participação na formação da identidade das crianças e dos adolescentes. Os pais não podem continuar agindo como se seus filhos fossem assexuados, e a escola como se a sexualidade dos seus alunos não fosse problema seu; enquanto o Estado isenta-se da sua responsabilidade privatizando a educação do país.

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